DESTA VEZ, NÃO!

Publicado em Por Jose Guilherme Cortenove

Não serei candidata!

Sei que é absurdo que alguém tenha de vir declarar isso assim desta forma, mas perante todos aqueles que vêm me rondando, me cercando, questionando sobre o fato de minha possível candidatura, se surpreendendo quando digo que não o serei e daí insistem, me relembrando a quantidade de votos que obtive na última eleição, afirmando que desta vez certamente eu estaria eleita, tomo a liberdade de vir aqui dizer:

Obrigada, mas desta vez, não!

Sou muito grata mesmo a todos àqueles que acreditaram em mim nos últimos dois pleitos. Foram 65 na primeira vez e 100 na segunda. Ou seja, mais de 50% de aumento em votos de um pleito para o outro, com um trabalho de formiguinha nas duas vezes e em apenas três meses que anteciparam as eleições. Só visitei pessoas a quem fui recomendada e que me abriram suas portas, me escutaram, e algumas delas me escolheram. Isso sem qualquer parentesco (a não ser os 4 de minha casa), sem transferência, sem “compra” ou qualquer outra coisa que costumeira e vergonhosamente ocorre por aqui. E não vejo que isso caiba como alguma virtude minha, já que deveria ser o esperado e usual de qualquer candidato sério, ou melhor, de qualquer cidadão.

Foi para mim uma honra ter conhecido estas pessoas, ouvir suas queixas e anseios, ainda mais quando vi a totalização de minha votação – elevada quantidade para alguém quase desconhecida como eu – porém isso não me tornou vereadora, “servi de escada” como dizem por aí e assim não pude mostrar a que tinha vindo…

E quão difícil me é assistir de longe quantos dos que ali estão também ainda não tê-lo feito, apesar de todo o tempo decorrido.

Mas, como digo, Águas de São Pedro ainda não está pronta para candidatos como eu! Desculpem-me aqueles que pensarão que me acho a “última bolacha do pacote” ou que tenha “tomado água benta de barril”, mas não, não me acho “o máximo”, nem melhor que ninguém, nem a mais capaz ou coisa assim. Apenas penso que grande parte de nossa sociedade aquapedrense, principalmente aquela que só vem pra votar, é composta de muitos que ainda pensam a coletividade como se fosse apenas o seu próprio umbigo.

Fala-se tanto de corrupção na esfera política, da sujeira nacional que nos envergonha perante o mundo, como se isso só ocorresse lá longe, dentro dos plenários ou gabinetes, mas esquece-se que isso faz parte do nosso dia-a-dia, do próprio comportamento de grande parte dos brasileiros de uma forma tão natural que até parece normal àquele que requer apenas favoritismos para si mesmo, seja através de um “quebra-galho”, um “jeitinho”, ou o que for para melhorar para si ou para os seus, mesmo que isso desfavoreça o todo ou lese a alguém. Não seria isso corrupção? Corrupção é apenas o desvio do dinheiro público, feito pelos “grandes colarinhos brancos” e que um dia cai na imprensa? Não!

Vir de fora, sem conhecer a realidade de um lugar onde não se vive, exclusivamente pra votar em alguém que é amigo ou está lhe “dando algum” é uma forma de corrupção. Aceitar dar seu voto a alguém que lhe deu uns tijolinhos para construir um puxadinho, limpou seu terreninho ou a troco de uma conta de luz paga, é uma forma de corrupção. Continuar escolhendo alguém somente porque este lhe favoreceu e vai continuar a fazê-lo de alguma forma, seja por um possível emprego ou lhe “passar na frente” de alguma das inúmeras filas que existem por aí, é uma forma de corrupção. Esquecer que a comunidade é formada pelo todo e é o todo que deve ser contemplado, e não só o próprio umbigo, também é uma forma de corrupção. E ser aquele que faz isso – seja na condição de candidato ou eleitor – para esse então não há sequer denominação ou justificativa!

Cada um é detentor do seu poder de voto, mas é o todo que paga a conta!

Enquanto perdurar a ideia de que “se fui favorecido e pra mim tá bom assim, os outros que se virem”, não mudaremos nosso cenário local, quiçá o nacional, pois as pessoas vão desistindo de ajudar, e as novas que chegam remarão muito tempo contra a corrente e um dia desistirão também. É isso que faz alguns tipos de políticos que se tem hoje em âmbito geral sobreviverem. É esse tipo de pensamento que mantém o mesmo quadro durante anos a fio.

É preciso repensar seriamente nossas próprias atitudes, saber quais são os nossos deveres e obrigações enquanto cidadão para aí sim, poder-se cobrar direitos!

Não podemos olvidar que fazemos parte desse todo, que a coletividade tem de estar acima do eu, pois é ela que alavanca o País, e este, a passos lentíssimos parece iniciar um processo de mudança, mas ainda com sequelas seriíssimas, onde corrupto julga corrupto, corrupto prende corrupto e a grande massa trabalha muito duro, sua e verte puro sangue pelo seu sustento e dos seus, mas também acaba por sustentar tudo isso. Então como entender que ainda se aceite possibilitar nomes para concorrer à eleição que tenham históricos demonstrados de desvios e correm atrás de todos os artifícios jurídicos ou justificativas vãs para poder candidatar-se? E o pior disso tudo, querer que os mesmos sejam eleitos? Afinal, qual é o verdadeiro intuito quando se deseja que tal coisa aconteça? É disso que estou falando!

Para refletir com seriedade, os nomes que visassem cargos eletivos fossem eles quais fossem não poderiam ter sequer suspeitas. Tais nomes deveriam ser impolutos, imaculados. Mas onde encontrá-los? Difícil responder? Não, já que conheço tal resposta. Mas enquanto Águas não estiver pronta pra isso, enquanto o Brasil não sair dessa situação caótica em que lhe enfiaram, enquanto não houver uma verdadeira faxina local nos votos “transferidos”, enquanto não houver seriedade nas candidaturas pensando no todo e não no “emprego”, enquanto só houver interesse nas “escaladas” através dos votos de outrem, tais nomes continuarão ficando de fora e se esvaindo no massacre dia-a-dia ao idealismo, nas comparações injustas com o lixo que invadiu o âmago da política em geral e isso abala qualquer ser humano, por mais forte que ele seja, haja vista que ninguém é de ferro. Que triste que seja assim!

Será que um dia isso vai mudar? Fica a questão. E se isso acontecer, quem sabe de uma próxima vez…

Maria Clara Rocha,

Munícipe de Águas de São Pedro.

Deixe um comentário abaixo